Altitatiayus dulceae, popularmente chamado besouro-tesoura, é uma espécie de besouro da subfamília dos lucaníneos (Lucaninae), da família dos lucanídeos. Pertencente ao gênero Altitatiayus, foi descrita em 2002 a partir de exemplares coletados no Parque Nacional do Itatiaia, no sudeste do Brasil. Muito semelhante a A. godinhorum, distingue-se principalmente pela conformação do pronoto. Possui coloração negra, mede entre 12,2 e 15,8 milímetros de comprimento e apresenta dimorfismo sexual, com mandíbulas alongadas nos machos. O epíteto específico homenageia Dulce Godinho, cujas coletas, realizadas em conjunto com Celso Godinho, levaram à descoberta da espécie. Endêmica do Brasil, A. dulceae é conhecida apenas da Trilha da Serra Negra, na região do Parque Nacional do Itatiaia, entre os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde ocupa uma área estimada em apenas oito quilômetros quadrados. Todas as espécies do gênero são braquípteras e incapazes de voar, apresentando baixa capacidade de dispersão. Os adultos possuem hábitos diurnos, deslocam-se lentamente entre a vegetação rasteira e aparentemente obtêm nutrientes de solos encharcados, enquanto as larvas vivem enterradas a pouca profundidade, alimentando-se de matéria orgânica em decomposição e possivelmente de raízes. A espécie é classificada como criticamente em perigo (CR) no Brasil desde 2022, tendo sido anteriormente considerada vulnerável (VU). Não existem estimativas populacionais disponíveis, e entre as principais ameaças destacam-se a intensa visitação turística na parte alta do Parque Nacional do Itatiaia, as queimadas e os efeitos potenciais das mudanças climáticas. Devido à ocorrência restrita às maiores altitudes da Serra da Mantiqueira, o aumento das temperaturas pode reduzir significativamente as áreas adequadas para sua sobrevivência, não existindo regiões mais elevadas que possam funcionar como refúgio climático.

Taxonomia e sistemática Altitatiayus dulceae é uma espécie de besouro da família dos lucanídeos, incluída na subfamília dos lucaníneos e na tribo dos esclerostominos. Pertence ao gênero Altitatiayus, sendo descrita originalmente por Bomans & Arnaud em 2002. O gênero Altitatiayus foi objeto de uma revisão taxonômica abrangente realizada por Grossi & Almeida (2010). Altitatiayus dulceae foi descrita a partir de exemplares coletados no Parque Nacional do Itatiaia (PARNA do Itatiaia), no estado do Rio de Janeiro, a cerca de 2 300 metros de altitude. A descoberta da espécie resultou de coletas realizadas por Dulce e Celso Godinho, que permitiram identificar uma nova população do então gênero Sclerostomus (subgênero Altitatiayus). O epíteto específico homenageia Dulce Godinho. O holótipo masculino e o alótipo feminino foram coletados em fevereiro de 1996, sendo acompanhados por 33 parátipos depositados em diferentes coleções científicas. Posteriormente, Altitatiayus, até então tratado como subgênero de Sclerostomus, foi elevado à categoria de gênero por Grossi & Paulsen (2009).

Descrição A espécie é muito semelhante a A. godinhorum, da qual se distingue principalmente pela conformação característica do pronoto. Apresenta coloração inteiramente negra e pouco brilhante na face dorsal, medindo entre 12,2 e 15,8 milímetros de comprimento. Nos machos, que atingem entre 11 e 15,6 milímetros, a cabeça possui mandíbulas alongadas semelhantes às de A. godinhorum, enquanto o pronoto é retangular, quase liso e pouco pontuado, com o disco levemente elevado anteriormente e uma protuberância anterior bifurcada no ápice que se projeta sobre a fronte. Os élitros são densamente cobertos por pontuações largas e rasas, dispostas em fileiras longitudinais. As fêmeas, com 10,5 a 12,7 milímetros de comprimento, não apresentam diferenças marcantes em relação às de A. godinhorum. Na revisão do gênero realizada por Grossi & Almeida (2010), a espécie foi caracterizada por apresentar comprimento entre 12 e 17 milímetros e largura entre 5 e 7 milímetros, superfície dorsal negra e pernas, ventre e peças bucais avermelhados. Os machos maiores possuem mandíbulas delgadas e estreitamente bifurcadas no ápice, enquanto o pronoto é convexo, trapezoidal e projetado anteriormente. As fêmeas apresentam pronoto arredondado e moderadamente pontuado. A espécie distingue-se de A. rotundatus e A. godinhorum pelo formato do pronoto masculino, pela pontuação mais intensa dos élitros e do pronoto e por caracteres próprios da genitália.

Distribuição e habitat Altitatiayus dulceae é uma espécie endêmica do Brasil, conhecida exclusivamente pela Trilha da Serra Negra, situada a noroeste do Hotel Alsene, no PARNA do Itatiaia, nos limites dos municípios de Itamonte, em Minas Gerais, e Itatiaia, no Rio de Janeiro. Trata-se de uma espécie de distribuição extremamente restrita, permanecendo conhecida apenas para essa localidade. Sua área de ocupação (AOO) foi estimada em 8 quilômetros quadrados, com base em quadrículas de 2 × 2 quilômetros distribuídas ao redor da Trilha da Serra Negra. A espécie ocorre no domínio da Mata Atlântica, na sub-bacia do rio Grande, integrante da bacia do rio Paraná. A localidade exata da espécie permaneceu desconhecida até 2004, quando novos exemplares foram encontrados na Trilha da Serra Negra, próximo à divisa entre Minas Gerais e Rio de Janeiro. Como os demais representantes do gênero, está associada aos campos de altitude da Serra da Mantiqueira, acima de 2 000 metros de altitude. As espécies de Altitatiayus apresentam distribuições relictuais, alopátricas e extremamente restritas, frequentemente isoladas por montanhas ou cursos d'água.

Ecologia Todas as espécies do gênero Altitatiayus são braquípteras, apresentando asas reduzidas e incapacidade de voo, o que resulta em baixa capacidade de dispersão. Os adultos possuem hábitos diurnos e são observados apenas durante os períodos mais quentes do dia, quando se deslocam lentamente sobre o solo ou entre a vegetação rasteira. A alimentação dos adultos permanece pouco conhecida. Observações em campo sugerem que eles obtenham nutrientes a partir dos sais minerais presentes em solos encharcados, uma vez que exemplares mantidos em cativeiro não aceitaram os alimentos normalmente consumidos por outros representantes da família dos lucanídeos. As larvas vivem enterradas no solo, geralmente a menos de 15 centímetros de profundidade, onde se alimentam de matéria orgânica em decomposição e, possivelmente, de raízes. Esse hábito subterrâneo caracteriza a fase imatura do gênero e dificulta a observação direta de seu ciclo de vida em ambiente natural.

Conservação Altitatiayus dulceae foi avaliada nacionalmente em 2022 pelo Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), gerenciado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), como criticamente em perigo (CR), com base nos critérios B1ab(iii)+B2ab(iii). Avaliações anteriores realizadas no Brasil classificaram-na como vulnerável (VU) em 2014 e 2015, ambas fundamentadas no critério D2. No Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção consta como vulnerável, com base na avaliação de 2014. Consta na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção desde 2014 e permaneceu incluída na atualização publicada em 2022, mantendo seu reconhecimento oficial como integrante da fauna brasileira ameaçada de extinção. A espécie está presente no PARNA do Itatiaia. Não existem estimativas disponíveis sobre o tamanho populacional de Altitatiayus dulceae, e a tendência de suas populações permanece desconhecida. Entre as principais ameaças à espécie destaca-se a intensa visitação turística na parte alta do PARNA do Itatiaia, especialmente nas trilhas da região do Vale das Prateleiras. Nessa área, foi registrado intenso pisoteio de indivíduos do gênero Altitatiayus, consequência da presença de centenas de visitantes durante os períodos de atividade dos adultos. A degradação dos habitats naturais em suas áreas de ocorrência, sobretudo em decorrência de queimadas, também representa um fator de risco potencial para a manutenção das populações. As mudanças climáticas globais constituem outra ameaça relevante. Como as espécies do gênero ocorrem nas maiores altitudes da Serra da Mantiqueira, sua capacidade de resposta ao aumento das temperaturas é limitada pela ausência de ambientes mais elevados que possam servir como refúgio climático. Dessa forma, o aquecimento global pode levar à redução das áreas adequadas de ocorrência e, em cenários extremos, à extinção local ou mesmo do gênero.

Notas [a] ^ O critério B1ab(iii) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) é aplicado a táxons com extensão de ocorrência extremamente reduzida e que atendem a condições adicionais relacionadas à fragmentação ou ao número limitado de localidades conhecidas. O subcritério a indica que a espécie está severamente fragmentada ou ocorre em poucas localidades, enquanto o subcritério b(iii) aponta a existência de um declínio contínuo, observado, inferido ou projetado, na área, extensão ou qualidade do habitat. Em conjunto, esse critério reflete o elevado risco de extinção decorrente da distribuição geográfica restrita e da deterioração progressiva dos ambientes ocupados. O critério B2ab(iii) baseia-se na área de ocupação da espécie, em vez de sua extensão de ocorrência. Ele é aplicado quando a área efetivamente ocupada é muito pequena e a espécie também apresenta fragmentação acentuada ou número reduzido de localidades (subcritério a), associado a um declínio contínuo na área, extensão ou qualidade do habitat (subcritério b(iii)). Assim, o critério reconhece que espécies restritas a áreas diminutas e sujeitas à degradação ambiental possuem maior vulnerabilidade a eventos locais e, consequentemente, maior probabilidade de extinção. [b] ^ O critério D2 da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) é aplicado a espécies com distribuição geográfica muito restrita ou com número reduzido de localidades de ocorrência, tornando-as particularmente suscetíveis aos efeitos de atividades humanas ou de eventos aleatórios. Embora essas espécies nem sempre apresentem declínios populacionais evidentes, sua área de ocupação limitada ou a concentração em poucas localidades faz com que alterações ambientais relativamente rápidas possam levá-las, em curto intervalo de tempo, a uma categoria de ameaça mais elevada ou mesmo à extinção. Esse critério é utilizado principalmente para reconhecer a vulnerabilidade inerente de táxons raros ou restritos, cuja persistência depende da manutenção de poucos remanescentes de habitat. Assim, incêndios, expansão urbana, turismo intenso, introdução de espécies exóticas, eventos climáticos extremos ou outras perturbações localizadas podem comprometer grande parte ou a totalidade da população, justificando sua classificação como vulnerável (VU) com base no critério D2.

Referências