A campanha do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, vai manter o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no centro dos ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A aposta é explorar a crise recente na Corte para associar os dois e transformar o desgaste do magistrado em uma espécie de trunfo contra o petista.A ofensiva ganhou destaque no ato de 7 de Setembro, na Avenida Paulista, e voltou a ser repetida por Flávio nessa terça-feira (8/9), durante uma transmissão ao vivo. Nos dois momentos, o candidato resumiu a linha que pretende explorar: “Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”.Os ataques também atendem a uma preocupação da campanha com a mobilização da própria base. Aliados avaliam que Flávio herdou boa parte do eleitorado fiel ao pai, Jair Bolsonaro, mas ainda não desperta entre os apoiadores o mesmo nível de engajamento.O embate com Moraes, um dos principais alvos do bolsonarismo nos últimos anos, é visto como uma pauta capaz de ajudar nessa mobilização.Na transmissão desta terça, Flávio aprofundou a associação. O senador afirmou que Lula e Moraes “viraram uma coisa só” e classificou a relação entre os dois como um “consórcio onde eles se autodefendem”.A campanha aumentou os ataques ao ministro depois da revelação de diálogos entre Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Leia também Demétrio VecchioliTSE abre investigação por suposto abuso econômico de Flávio em Barretos Grande AngularFlávio Bolsonaro chama Andrei de “cupincha” de Lula e comemora afastamento BrasilPor impeachment de Moraes, Alcolumbre e Flávio entram em rota de colisão O ministro do STF André Mendonça, que passou a ser defendido por aliados e apoiadores de Flávio, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que apontava uma suposta conexão entre os dois. Segundo os investigadores, o banqueiro chegou a perguntar ao contato identificado como Moraes se deveria deixar o país antes de ser preso.Alexandre de Moraes reagiu dias depois. Dentro do inquérito das fake news, o ministro pediu que Mendonça fosse investigado por possíveis atos de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Em um novo desdobramento, nesta terça, André Mendonça decidiu afastar Andrei Rodrigues do comando da PF.Perda de fôlego na campanha petistaIntegrantes da campanha de Flávio avaliam que a disputa no Supremo favorece o candidato. Esses aliados procuram ligar as novas informações à acusação, repetida pelo bolsonarismo, de que Jair Bolsonaro foi perseguido pelo Judiciário no processo sobre a tentativa de golpe de Estado que terminou com sua condenação e prisão.Moraes é tratado há anos pelo grupo como seu principal adversário dentro do Judiciário. O ministro conduziu investigações e processos envolvendo o ex-presidente, seus filhos e aliados.Flávio Bolsonaro vinha evitando colocar o impeachment de integrantes do STF no centro da campanha, mas mudou o tom nos últimos dias. O senador passou a defender que Moraes renuncie, seja afastado ou enfrente um processo de impeachment.No 7 de Setembro, o candidato chamou Moraes de “laranja podre”, afirmou que ele não representa toda a Corte e prometeu “trabalhar para resgatar a credibilidade do Supremo”. Ao mesmo tempo, elevou os ataques a Lula e passou a apresentar o presidente como aliado político do ministro.Flávio também levou o tema para as futuras indicações ao Supremo. O próximo presidente terá a possibilidade de escolher quatro ministros da Corte: há atualmente uma vaga aberta, e Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes atingirão a idade da aposentadoria compulsória nos próximos anos.O que o plano de governo de Flávio prevê para o STFLimites para decisões tomadas individualmente por ministros.Restringir o grupo de pessoas e entidades autorizadas a questionar diretamente no STF a constitucionalidade de leis.Acabar com o foro privilegiado de deputados federais e senadores.Impedir que parentes de ministros, até o terceiro grau, e os respectivos escritórios de advocacia atuem no STF.Exigir uma quarentena de um ano para que ministros de Estado possam ser indicados ao Supremo.O senador, porém, prometeu fazer cinco indicações. A conta inclui uma eventual saída de Moraes. “Eu vou indicar cinco ministros para o STF, porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou Flávio Bolsonaro.O entorno do candidato avalia que insistir na ligação entre Lula e Moraes pode ampliar o desgaste do petista. Segundo pesquisas internas do PL, a campanha de Lula perdeu força a poucas semanas do primeiro turno.Flávio também passou a repetir que Moraes perdeu as condições de permanecer no Supremo. “Eu tenho certeza que não tem mais ambiente pra ele dentro do Supremo, não tem mais ambiente pra ele na sociedade. Ele tem que pagar pelo que ele tá fazendo aí”, disse nessa terça.A campanha, no entanto, não pretende concentrar o discurso apenas no STF. Segurança e custo de vida continuam entre os temas usados para alcançar um eleitorado mais amplo. O embate com Moraes cumpre outra função: mobilizar o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, tentar transferir para Lula parte da rejeição ao ministro.O ato de 7 de Setembro foi tratado pela campanha como uma oportunidade para estimular esse engajamento. Antes da manifestação, aliados reconheciam que Flávio ainda não conseguia mobilizar os apoiadores com a mesma intensidade do pai.Depois do evento, o candidato disse ter saído da Paulista com a “certeza de vitória ainda mais renovada” e afirmou que seu discurso havia sido bem recebido.4 imagensFechar modal.1 de 4Boneco inflável de Trump segurando Lula preso, em ato de Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista, em São PauloSam Pancher/Metrópoles2 de 4Apoiadores de Flávio Bolsonaro em ato na Paulista pedindo "Fora Lula"Rebeca Ligabue/Metrópoles3 de 4Apoiadores de Flávio Bolsonaro em ato na PaulistaRebeca Ligabue/Metrópoles4 de 4Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, em comício na Paulista, no 7 de SetembroRebeca Ligabue/MetrópolesA ofensiva convive, porém, com um risco para o próprio candidato. A relação de Flávio com Vorcaro na produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro, batizada de Dark Horse, continua sendo tratada com preocupação por integrantes da campanha.Documentos e mensagens apontam que o candidato procurou o banqueiro e negociou um compromisso de até R$ 134 milhões para produzir o filme. Cerca de R$ 60 milhões teriam sido transferidos para o projeto. Flávio nega irregularidades, afirma que não administrava os recursos e atribui à produtora Go Up Entertainment a responsabilidade de explicar os valores.Aliados avaliam que as revelações envolvendo Moraes reduziram, nos últimos dias, o espaço ocupado pelo caso Dark Horse no debate político. A preocupação com o episódio permanece, mas a campanha tenta aproveitar a crise no Supremo para inverter a pressão: em vez de Vorcaro puxar o foco para Flávio, o candidato procura fazer das relações do banqueiro com Moraes um novo flanco de ataque a Lula.















