A recente crise no Supremo Tribunal Federal (STF), deflagrada entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, se transforma em mote eleitoral para os candidatos à Presidência da República.O confronto entre os magistrados colocam os presidenciáveis diante de um tema do qual não conseguem escapar — e que já começa a ser usado como uma das principais armas das campanhas.Embora já esteja no radar de políticos e candidatos para o pleito deste ano, foi a recente tensão na Corte envolvendo embate entre magistrados e o Banco Master que jogou luz sobre o impacto do STF na corrida eleitoral. O tema, avaliam especialistas, deve dominar a agenda das próximas semanas e pressiona os candidatos a marcarem posição sobre o futuro da Suprema Corte.A crise no STF teve início depois que Mendonça retirou o sigilo da investigação da Polícia Federal (PF) sobre o elo entre Moraes e Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. A relação entre o magistrado e o banqueiro foi identificada por meio de mensagens encontradas no celular de Vorcaro, que sugerem eventual favorecimento e cobrança indevida de atuação jurisdicional de Moraes no caso do Banco Master.Entre os principais candidatos à Presidência da República, a crise instalada na Suprema Corte se transforma em munição eleitoral e assume pesos distintos para cada campanha, que exploram o tema de acordo com o próprio eleitorado e em busca de melhor desempenho nas urnas.O impacto eleitoral ganhou uma nova dimensão nessa terça-feira (8/9), quando Mendonça determinou o afastamento preventivo, por até 90 dias, do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da corporação, Leandro Almada da Costa. O ministro afirmou ter sido alvo de “monitoramento sistemático e ilegal” pela estrutura da Polícia Federal.A medida atingiu diretamente a cúpula de um órgão subordinado ao governo Lula e provocou manifestações quase imediatas de adversários do petista. A Segunda Turma chegou a formar maioria para manter a decisão, mas Gilmar Mendes pediu vista e interrompeu a conclusão do julgamento. A liminar de Mendonça permanece em vigor.O episódio mostra como os próximos movimentos do Supremo podem interferir na campanha sem que os candidatos tenham controle sobre eles. Cada nova decisão envolvendo Moraes, Mendonça, a PF ou o Banco Master tem potencial para oferecer munição a um campo e, ao mesmo tempo, criar problemas para outro.Crise no STFPF mapeou troca de mensagens e supostos encontros entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.A troca de mensagens sugere eventual favorecimento e cobrança indevida de atuação jurisdicional de Moraes no caso do Banco Master.A crise foi deflagrada quando o ministro André Mendonça derrubou sigilo do relatório da PF, que gerou reações de Alexandre de Moraes.Em reação, Moraes acionou o presidente do STF, Edson Fachin, no âmbito do Inquérito das Fake News, apontando que Mendonça teria cometido abuso de autoridade, improbidade e crime de responsabilidade.Fachin, contudo, retirou o pedido de investigação contra Mendonça do Inquérito, que é relatado por Moraes.Ainda em desdobramento, Mendonça pediu o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal após argumentar que ele próprio havia sido investigado ilegalmente em relatórios que, segundo Mendonça, foram utilizados por Moraes para embasar o pedido de investigação contra ele no inquérito das Fake News.Como candidatos exploram crise no STFO presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já encabeçou um mote eleitoral que abraça a crise na Suprema Corte. O atual mandatário, na primeira manifestação sobre o caso, defendeu uma reforma no Judiciário brasileiro. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o petista discorre sobre a crise e defende a adoção de um código de ética para Judiciário e o Ministério Público.O presidente declarou ainda que a democracia “precisa de instituições fortes e respeitadas” e classificou ser “fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer”. “Fica claro que o nosso sistema político e judiciário precisam de reformas profundas”, declarou Lula.O afastamento de Andrei, porém, tornou a situação mais delicada para o presidente. Até então, Lula conseguia tratar o caso principalmente como uma crise do Judiciário e defender mudanças institucionais. Agora, uma decisão de um integrante do Supremo atinge diretamente o diretor da PF escolhido durante seu governo.Lula recebeu o advogado-geral da União, Jorge Messias, no Alvorada horas depois da decisão. A AGU decidiu recorrer e deve sustentar que Mendonça invadiu uma competência da Presidência da República ao afastar monocraticamente o diretor-geral da PF. Messias e o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, também se reuniram com Fachin.O cenário impõe um equilíbrio à campanha petista. Uma reação dura contra Mendonça pode alimentar o discurso de adversários de que Lula busca proteger o comando da PF; por outro lado, deixar a decisão sem resposta abre espaço para que candidatos da oposição associem as suspeitas levantadas pelo ministro diretamente ao governo.O tom ponderado adotado pelo petista destoa do senador Flávio Bolsonaro (PL). As críticas ao STF e aos magistrados já são exploradas pelo campo da direita desde a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ganharam ainda mais peso nas últimas semanas.O tema foi amplamente explorado durante manifestação realizada por Flávio Bolsonaro em São Paulo, em celebração ao 7 de setembro — data que é considerada um símbolo para os bolsonaristas. Durante o ato, o senador fez críticas ao ministro Alexandre de Moraes e buscou associá-lo a Lula.O afastamento de Andrei abriu uma nova frente para a campanha de Flávio. O senador comemorou a decisão de Mendonça, chamou o diretor-geral da PF de “cupincha” e “pau-mandado” de Lula e afirmou que um suposto grupo político dentro da corporação havia sido “desmascarado oficialmente”.Para Flávio, no entanto, Mendonça ocupa uma posição particularmente contraditória. O ministro, que chegou ao Supremo em 2021 por indicação de Jair Bolsonaro, agora produz decisões usadas pelo candidato para atacar o governo Lula, mas também conduz uma investigação capaz de gerar desgaste para a própria campanha do PL.Mendonça é o relator do inquérito que apura os repasses de Daniel Vorcaro ao Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro financiado depois de pedido feito por Flávio ao banqueiro. Nesta terça, o gabinete do ministro tinha prevista a oitiva de Antonio Carlos Freixo Júnior, empresário que fechou acordo de delação premiada sobre os repasses.A crise, portanto, oferece a Flávio uma arma contra Lula e Moraes, mas mantém no centro do debate o mesmo banqueiro que aparece no caso do filme sobre seu pai. O candidato também depende dos próximos atos de um ministro que, apesar de ter sido indicado ao Supremo por Bolsonaro, é responsável por uma investigação que o atinge diretamente.Caiado, Renan, Zema e Cury também apostam em mote sobre a criseA crise também não passou batido entre os presidenciaveis que disputam o 3º lugar nas eleições de outubro. O candidato do Novo, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) voltou a entoar as críticas aos “intocáveis” — termo utilizado pelo político para se referir aos ministros do STF.O candidato também se utilizou do 7 de setembro para reforçar as críticas à Suprema Corte. Zema participou de ato em São Paulo nessa segunda-feira (7/9) e participou de ação que estendeu uma faixa que dizia “chega de intocáveis”.No caso de Zema, há um componente adicional: a decisão que afastou Andrei atendeu a um pedido feito pelo próprio Novo. Em 2 de setembro, a legenda pediu a Mendonça que avaliasse a retirada cautelar do diretor-geral da PF do cargo. O partido também requereu o afastamento do procurador-geral da República, Paulo Gonet, ponto que ainda não havia sido analisado pelo ministro.Zema rapidamente transformou a medida judicial em ativo eleitoral. “Conseguimos o afastamento do chefe da PF”, escreveu o candidato. Na mesma manifestação, voltou a usar o slogan adotado contra integrantes do Supremo: “Enquanto muitos falam, a gente faz. E seguiremos firmes contra os intocáveis”.A participação direta de uma legenda com candidato à Presidência também entrou no debate interno da Corte. Uma ala do STF considera que Mendonça “esticou” a interpretação da lei para acolher o requerimento do Novo e aponta justamente o interesse político da sigla na eleição como um dos elementos da controvérsia.O caso cria, assim, uma situação peculiar na disputa: um partido com candidato à Presidência pediu uma medida contra o chefe da Polícia Federal do governo de um adversário e, depois de obter uma decisão favorável, passou a apresentá-la como uma vitória política.Ronaldo Caiado (PSD) também endossou a medida. O ex-governador de Goiás classificou a decisão de Mendonça como “corajosa”, afirmou concordar “plenamente” com o afastamento e sustentou que a saída de Andrei permitiria o avanço das investigações.Renan Santos (Missão) buscou ocupar outro espaço. O candidato comemorou o afastamento, mas atacou simultaneamente lulistas e bolsonaristas ao relacionar Lula e Flávio a Vorcaro e acusar os dois campos de proteger os próprios aliados.Augusto Cury (Avante), por sua vez, já havia levado Mendonça diretamente para seu discurso no 7 de Setembro. Durante ato em Copacabana, mandou “um abraço muito especial” ao ministro e defendeu que Mendonça e Fachin tenham independência para investigar suspeitas dentro do Supremo.Cury também tenta ocupar o debate com propostas concretas para a Corte. O presidenciável defende o fim da vitaliciedade dos ministros e mandatos de oito anos, além de mudanças nos critérios de escolha dos integrantes do tribunal.2 imagensFechar modal.1 de 2Crise no STF entra na disputa presidencial e passa a ser explorada de formas distintas pelas principais campanhasArte/Metrópoles2 de 2Embate dentro do Supremo amplia tensão institucional e produz novos efeitos sobre a corrida eleitoralVINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.fotoCorrida fica refém dos próximos capítulosA disputa em torno do Supremo ganhou, dessa forma, uma característica diferente de outros temas eleitorais. Os candidatos conseguem escolher como reagir à crise, mas não controlam quais serão os próximos fatos produzidos pelas investigações e pela própria Corte.Para Lula, uma crise inicialmente concentrada no STF atingiu a direção da Polícia Federal de seu governo. Flávio ganha munição contra o petista e Moraes, mas depende das decisões do mesmo Mendonça que relata o caso Dark Horse. Zema transformou em bandeira eleitoral uma decisão provocada pelo próprio partido.Caiado, Renan e Cury também tentam ocupar espaços distintos no eleitorado insatisfeito com o Supremo, o que aumenta a pressão para que novas decisões da Corte sejam interpretadas imediatamente pela lógica da disputa presidencial.Há ainda uma série de capítulos em aberto. A Segunda Turma precisa concluir o julgamento sobre o afastamento de Andrei, a AGU pretende recorrer da decisão e uma ala do STF questiona a fundamentação usada por Mendonça.Paralelamente, seguem as investigações relacionadas a Moraes, ao Banco Master e ao Dark Horse.É nesse ponto que a crise deixa a corrida presidencial refém dos próximos movimentos do Supremo. Uma decisão capaz de favorecer o discurso de um candidato pode, dias depois, atingir sua própria campanha.










