Fábia Oliveira

A influenciadora participou de uma trend nas redes sociais e marcou dez atitudes "tóxicas" com as quais se identifica

Fábia Oliveira

09/09/2026 10:53, atualizado 09/09/2026 10:57

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Virginia Fonseca entrou em uma trend que circula nas redes sociais, que propõe identificar comportamentos considerados “tóxicos”. Na brincadeira, a influenciadora marcou dez atitudes com as quais se identifica, entre elas ignorar mensagens por dias, mexer no celular enquanto alguém está falando e cancelar compromissos de última hora. A publicação levanta uma discussão que vai além da brincadeira: estamos chamando qualquer hábito incômodo de “tóxico” ou alguns desses comportamentos realmente podem sinalizar que algo na rotina merece atenção?

Para Roberta Machado, neuropsicóloga ouvida pela coluna Fábia Oliveira, é preciso evitar tanto a banalização quanto a tentativa de transformar uma lista publicada nas redes sociais em diagnóstico.

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“É interessante perceber que a trend reúne, sob o rótulo de ‘comportamentos tóxicos’, atitudes que podem ter origens completamente diferentes. Procrastinar uma tarefa simples, ignorar mensagens por dias, pegar o celular enquanto alguém está falando, gastar por impulso ou cancelar um compromisso de última hora não significa, isoladamente, que exista um transtorno ou que aquela pessoa tenha uma personalidade ‘tóxica’. Muitas dessas atitudes fazem parte do comportamento cotidiano e podem aparecer em momentos de cansaço, sobrecarga, estresse ou simplesmente como hábitos que foram sendo reforçados ao longo do tempo. O que merece atenção é a frequência, a intensidade e, principalmente, o impacto que isso começa a provocar”, explicou.
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Segundo Roberta, alguns dos comportamentos citados na trend envolvem habilidades importantes para o funcionamento cotidiano.
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“Do ponto de vista da neuropsicologia, funções como atenção, planejamento, organização, controle inibitório e regulação emocional participam de muitas dessas situações. Mas não podemos olhar uma lista de hábitos publicada nas redes sociais e concluir que alguém tem TDAH, ansiedade ou qualquer outro diagnóstico. O comportamento precisa ser compreendido dentro da história e do contexto de cada indivíduo. Talvez o lado positivo dessas trends seja justamente provocar uma auto-observação: em vez de simplesmente dizer ‘eu sou assim’, perguntar se determinado hábito está me fazendo bem, prejudicando minhas relações ou dificultando minha rotina”, acrescentou.
Celular na mão até durante uma conversa
Entre os comportamentos assinalados por Virginia Fonseca, um dos mais presentes na rotina contemporânea é mexer no celular enquanto outra pessoa fala. Para Gabriela Mazaro, diretora escolar e neuropsicopedagoga, a naturalização desse hábito merece atenção especialmente porque crianças e adolescentes aprendem também observando o comportamento dos adultos.
“Não podemos olhar para o celular apenas pelo número de horas de uso. É preciso perceber o espaço que ele ocupa na rotina e nas relações. Quando o aparelho interrompe constantemente uma conversa, está presente em todas as refeições ou se torna difícil permanecer alguns minutos sem conferir notificações, vale observar esse padrão. Para crianças e adolescentes, o exemplo dos adultos também é muito importante. Não adianta cobrar presença e limite de tela dos jovens se, durante uma conversa em família, os próprios adultos estão o tempo inteiro olhando para o telefone”, explicou.
A especialista ressalta que o ambiente digital não deve ser tratado como inimigo, mas que é importante perceber quando começa a substituir experiências importantes fora das telas.
“Tecnologia também significa informação, aprendizado, entretenimento e conexão. A questão é quando ela começa a ocupar espaços que deveriam ser destinados ao sono, à convivência, aos estudos, à atividade física e às relações presenciais. Mudanças persistentes de comportamento, irritabilidade quando está sem o aparelho, isolamento ou prejuízo na rotina merecem ser observados. Mais do que simplesmente proibir, precisamos ensinar a construir uma relação mais consciente com o ambiente digital”, afirmou.
Para Roberta Machado, reconhecer um comportamento que se repete pode ser um ponto de partida, desde que isso não se transforme em autodiagnóstico.
“Reconhecer um padrão pode ser o primeiro passo para modificá-lo, sem transformar toda característica humana em diagnóstico ou todo comportamento incômodo em algo ‘tóxico’. A pergunta mais importante talvez seja: isso acontece ocasionalmente ou se tornou um padrão que está prejudicando minha vida, meus compromissos e minhas relações?”, concluiu a neuropsicóloga.

